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Rocket Man

Fui uma criança fascinada pela velocidade. Corria pra janela sempre que as tempestades chegavam com suas rajadas de vento, pra ver as nuvens correndo no céu e as andorinhas desafiando o ar. Carros e motos de corrida e aviões de combate me arrepiavam. Meus animais favoritos eram também os mais rápidos: falcões peregrinos, guepardos, orcas… Sonhava em ser um corredor, a bordo do que quer que fosse, desde que fosse veloz. A parte de mim que nunca cresceu ainda brinca de corrida sempre que tem oportunidade, e a parte adulta foi atrás de providenciar os brinquedos certos: hoje sou o feliz “piloto” de um carro, uma moto, uma bicicleta, um caiaque, um par de tênis e um avião a jato.

A altitude e as coisas do céu não foram minhas paixões de infância. Fui me apaixonar de verdade pela aviação mais tarde, nas aulas de meteorologia, quando descobri como funcionava o oceano de ar sobre nossas cabeças. E os primeiros voos reforçaram esse amor, por me levarem para dentro dele. Descobri que vivemos no fundo de um mar de aventuras e belezas ocultas aos seres que não sabem voar.

Aprendendo a pilotar, lá nos idos de 1994, encantava-me ver as nuvens de perto, mas não podia entrar nelas para não perder o contato visual com o solo e com outras aeronaves. O voo obedecia as regras chamadas VFR (Visual Flight Rules), e o teco-teco não tinha os apetrechos necessários (nem eu o treinamento requerido) para o voo “cego”, por instrumentos. Não havia GPS, equipamentos de radionavegação, horizonte artificial ou qualquer outra coisa que não fosse olhar para o chão, para o relógio e para a bússola.

O espaço aéreo reservado ao aeroclube era imenso (para os 150km/h de um monomotor de treinamento), dividido em 11 boxes. Cada box poderia conter 2 aviões, um treinando “alto” (acima de 500m) e outro voando baixinho. Os boxes eram demarcados por referências no chão: antenas, morros, ilhas ou estradas, tudo servia para não invadir o espaço do vizinho e dar de cara com ele, o que certamente derrubaria os dois. Chaminés nos davam a direção do vento, e ficávamos o tempo todo atentos a lugares próprios para pouso caso o esbaforido motorzinho Lycoming de 4 cilindros entregasse os pontos. O voo acabava sendo muito ligado às referências da Terra, seja pela navegação ou pela proximidade, mesmo. Era possível inclusive (e treinávamos isso de vez em quando) voar exatamente sobre uma estrada, acompanhando suas curvas para aprender a voar por instintos, mantendo altitude e velocidade, corrigindo o vento, tudo sem olhar para dentro da máquina. Era uma das manobras que mais gostava de fazer.

Deixei o aeroclube 7 anos depois, carregando 1800 horas de voo nas costas e um peito cheio de esperança, apesar da imensa crise que se abatia sobre a aviação. O Brasil enfrentava um dólar em disparada, recessão econômica e as consequências do 11 de setembro. Muita gente estava desempregada, as grandes Vasp, Varig e Transbrasil haviam fechado suas asas e demitido milhares de pessoas. Foi preciso um ano colado ao asfalto para conseguir de novo um lugarzinho no céu. Foi um tempo de muita luta, muita tristeza, quando me dei conta que trabalho nenhum em terra serviria mais. Eu tinha meu lugar no mundo. Ou fora dele, de certa forma.

O segundo emprego trouxe asas maiores, uma máquina mais sofisticada e um pouco mais de altura. Sim, já precisava de escadinha para entrar na cabine, mas a altura que me refiro é acima do chão… Tinha início a verdadeira jornada para o reino das nuvens.

Os primeiros anos no Cessna Caravan foram basicamente de voos por instrumentos a 3000m de altitude. Ali pude descobrir o prazer de furar camadas de Stratus, passar sob a chuva dos Cumulus e até encarar algumas tempestades de frente (ou melhor, de raspão. Ninguém entra de propósito no meio de um Cumulonimbus, o tubarão branco dos céus)… Eram voos inteiros sem ver o chão, sobre um tapete de nuvens que fazia eu me sentir em outro planeta.

Nas missões de prospeção mineral que vieram a seguir, voávamos por 5 horas a apenas 150m do chão, e percebíamos cada detalhe do terreno percorrido. Bichos, plantas, quedas d’água,  prainhas desertas… nada nos escapava. Éramos velozes como as ágeis andorinhas da minha infância, desafiando morros e pedras no meio do vento. Quando passávamos por gado ou cabritos que ainda não haviam nos visto, era um rebu danado. Os bichos saíam em disparada, pulavam cercas, batiam-se uns nos outros pelo susto de ver de repente um predador alado gritando sobre suas cabeças. Foi uma época divertida e desafiante, que mudou minha vida para sempre pelas pessoas e lugares que conheci no “interior do interior” do Brasil.

Naquele tempo, olhava para o alto, principalmente quando havia grandes tempestades no horizonte, e imaginava como seria voar acima daqueles monstros brancos. Das nuvens, das turbulências, das panes e problemas típicos da aviação pequena. Estava cansado de trabalhar para patrões picaretas que expunham máquinas e tripulações a riscos desnecessários. Precisaria de um avião maior para chegar onde queria. A aviação continuava complicada em termos de emprego, mas 14 anos e 4800 horas de voo depois da primeira decolagem, lá estava eu, a 10000m de altura, sentadinho na direita da cabine de um Boeing 737-300, tomando um café e admirando a vista.

Depois dele veio um maior ainda, o Boeing 767-300F, o gigantesco cargueiro que tenho o prazer de pilotar hoje. Este monstrengo de 186 toneladas, 51m de asa e 56m de comprimento possui motores descomunais, que empurram a jamanta a mais de 13000m de altitude e 900km/h. Daqui do alto já não se veem tantos detalhes do chão. Perdemos de vista as pessoas, carros e casas lá embaixo. As cachoeiras são um ponto branco no meio do rio, as praias viram riscos amarelos bem finos e mal vemos as ondas no mar. Veleiros aparecem como pontinhos brancos apenas para os que tem boa visão de longe. Os mais velhos coçam os olhos e não conseguem ver os caros barquinhos na imensidão azul. Aliás, a cor azulada toma até as montanhas e florestas, pois é tanto céu entre a gente e o chão que tudo fica meio pálido e opaco. O mundo lá embaixo parece menos real, e menos importante.

Em compensação, o show das nuvens é magnífico. Nascentes e poentes com sombras apontadas para cima, a escuridão do espaço sobre nossas cabeças e a dança de nuvens Cirrus e Cumulonimbus ao nosso redor compõem as imagens mais lindas que já tive o privilégio de presenciar. Relâmpagos que correm linhas de tempestade kilométricas, por dentro e por fora das nuvens, montanhas água e gelo que raspamos com nossas asas metálicas, países e continentes que se apequenam pela nossa velocidade e altitude… É maravilhoso pertencer ao reino dos céus ainda em vida.

A noite é ainda mais interessante, para os morcegos como eu que apreciam madrugadas de vigília. Quando todos dormem, escureço as luzes da cabine ao mínimo necessário para não perder os ponteiros e me debruço no painel para ver as estrelas. Nenhum deserto ou selva do mundo aí embaixo dá uma visão tão privilegiada da nossa galáxia como aqui em cima. O céu noturno não é negro: são tantos pontinhos de luz azul que seria possível navegar só por eles. Nebulosas, constelações e meteoros são fáceis de identificar, e nos dias em que a Terra cruza por antigas caudas de cometa, uma chuva de estrelas cadentes risca o céu durante horas, para o encantamento deste, o desinteresse de alguns e o medo de um que conheci – “Vai que bate uma pedra dessas na gente!”, dizia ele. =]

Os companheiros de viagem são outras naves, piscando ao longe. Quando cruzamos uns com os outros, faróis acesos lá e cá servem de aceno, saudação e reconhecimento de que fazemos parte dessa outra dimensão. E vamos cada um para seu lado, em disparada. Os encontros aqui não duram mais que alguns segundos.

Pelas próximas 8 horas estarei aqui, quase no espaço, cruzando o tênue e descontínuo limite atmosférico. Se o vidro da janela arrebentar, vou encarar o sopro terrível a 50 graus negativos, com uma pressão de ar tão pequena que meu sangue vai se encher de bolhas, minhas juntas vão estourar e meus miolos ficarão inúteis em 30 segundos, por falta de oxigênio. Um traje espacial não seria exagero, apesar da dificuldade que teríamos pra fazer café ou ir ao banheiro. Benditos os parafusos que seguram essa janela no lugar, e que me permitem admirar o mundo de fora dele, tomar meu café e ajeitar as cuecas ao mesmo tempo.

And I think it's gonna be a long, long time...

And I think it’s gonna be a long, long time…

 
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Publicado por em 07/04/2015 em Voo

 

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O pálido pontinho azul e nossa maravilhosa insignificância.

A mais marcante experiência espiritual que já tive veio da foto tirada por Carl Sagan do planeta Terra, no comando da sonda espacial Voyager, então a 6,5 milhões de km de nossa casa. A imagem quase não nos permite ver a Terra, um pequeno pontinho azul na imensidão do sistema solar, este também minúsculo se comparado a tudo o que agora sabemos estar ao nosso redor.

Acompanhando a foto, as tocantes palavras do astrônomo que revelou a milhões de pessoas as belezas, os mistérios e a mágica sensação de pertencer a algo muito, muito maior. O Cosmos é nossa mãe, nosso mestre e nossa musa. Que maravilha poder saudar o Sol e as estrelas sabendo o quanto somos pequenos, e o quanto somos importantes. Perdidos no ínfimo pontinho azul, assombrados pelo profundo e pelo infinito, somos a parte do Universo que vive, respira e explora suas entranhas. 

“Look again at that dot. That’s here. That’s home. That’s us. On it everyone you love, everyone you know, everyone you ever heard of, every human being who ever was, lived out their lives. The aggregate of our joy and suffering, thousands of confident religions, ideologies, and economic doctrines, every hunter and forager, every hero and coward, every creator and destroyer of civilization, every king and peasant, every young couple in love, every mother and father, hopeful child, inventor and explorer, every teacher of morals, every corrupt politician, every “superstar,” every “supreme leader,” every saint and sinner in the history of our species lived there-on a mote of dust suspended in a sunbeam.

The Earth is a very small stage in a vast cosmic arena. Think of the endless cruelties visited by the inhabitants of one corner of this pixel on the scarcely distinguishable inhabitants of some other corner, how frequent their misunderstandings, how eager they are to kill one another, how fervent their hatreds. Think of the rivers of blood spilled by all those generals and emperors so that, in glory and triumph, they could become the momentary masters of a fraction of a dot.

Our posturings, our imagined self-importance, the delusion that we have some privileged position in the Universe, are challenged by this point of pale light. Our planet is a lonely speck in the great enveloping cosmic dark. In our obscurity, in all this vastness, there is no hint that help will come from elsewhere to save us from ourselves.

The Earth is the only world known so far to harbor life. There is nowhere else, at least in the near future, to which our species could migrate. Visit, yes. Settle, not yet. Like it or not, for the moment the Earth is where we make our stand.

It has been said that astronomy is a humbling and character-building experience. There is perhaps no better demonstration of the folly of human conceits than this distant image of our tiny world. To me, it underscores our responsibility to deal more kindly with one another, and to preserve and cherish the pale blue dot, the only home we’ve ever known.” 

― Carl Sagan, Pale Blue Dot: A Vision of the Human Future in Space

 
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Publicado por em 25/02/2015 em Natureza

 

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Auto-defesa

Certa vez ouvi de minha mestrinha: “Me recuso a me defender das pessoas”. Essa frase foi dita em um curso de Reiki há muitos anos, mas ela ecoa dentro de mim até hoje. Ouvindo-a, tive uma visão do sentido da vida, um lampejo de Iluminação no momento em que a compreendi. Gostaria de compartilhar esse momento com vocês.

Voltando um pouco mais no tempo, quando ainda era criança, lembro de um episódio de Jornada nas Estrelas em que uma certa raça alienígena pacífica possuía um globo brilhante capaz de realizar qualquer desejo humano. Quando os visitantes descobriram este poder, um dos cosmonautas terráqueos não resistiu e tomou o globo para si, matando um de seus protetores. Sem ele, a população do planeta pereceria, pois o objeto estava ligado à vida de cada um dos ETs. O Capitão Kirk interveio, na tentativa de prender o humano criminoso e salvar os aliens, mas os demais protetores interviram, dizendo: “Deixe-o ir. Se para ele o poder do globo é tão valioso, a ponto de matar a todos nós para realizar seus desejos, entendemos que deve haver algo mais importante que nossas vidas, e assim aceitamos o sacrifício. Ele nem precisava roubar, bastava pedir-nos que o daríamos.” O Capitão, surpreso, ficou sem reação, assim como o assassino.

[Ah… Me perdoem os fãs da turma do Spock, mas eu não lembro como termina este episódio!]

=)

O Hagakure conta uma história semelhante, menos extrema mas baseada em fatos reais: um bando de ladrões certa vez abordou em uma estrada do Japão um monge, que viajava sozinho. Queriam tomar-lhe o dinheiro, mas ele afirmou não ter nada para lhes dar. Os bandidos, um tanto contrariados, deixaram-no ir, mas poucos minutos depois ele voltou, correndo e gritando. Sacaram suas armas imaginando um ataque, mas tudo o que o monge tinha na mão era uma moeda: ele havia esquecido que a tinha guardada em um bolso, e a ofereceu aos ladrões para que ele pudesse manter sua palavra limpa. Os ladrões largaram as espadas e rasparam seus cabelos, seguindo-o a partir daquele dia.

Contei estes causos porque lá no curso de Reiki conectei essas histórias com algo que trazia em minha alma. Eu senti que também não gostaria de viver em um mundo onde precisasse me defender das pessoas. Além de ser gentil e bondoso com os outros, quero viver na crença de que cada humano que encontro está ali dando o melhor de si, pois ele possui o bem como essência e todo mal é uma doença, digna de compaixão e cura, jamais de vingança. Eu sei, no entanto, que as experiências agressivas do cotidiano insistem em testar minha vontade. Vejo a maldade por todos os lados. Seria mesmo o homem lobo do homem, como escreveu Titus Plautus em Asinaria? A vida às vezes parece mesmo uma guerra, em que precisamos sair armados e protegidos para não perecer. Nesse caso, seria o peito aberto uma desvalorização da vida, por entregar o destino à injustiça de corações alheios? Qual o caminho a seguir?

A resposta me encontrou ali, de joelhos, ouvindo minha mestre. Para que todos possam entender, explico por partes o que descobri:

  1. Existe algo imutável, eterno e invencível em todos os seres sencientes: seu espírito. Independente da crença em almas, vida após a morte ou algum deus criador do Universo, entendo que há uma energia oculta em tudo o que respira. Talvez até no que vive de outras formas, como as estrelas e os planetas, nuvens e montanhas. Esta energia não pode ser ferida pelas experiências terrenas, pela nossa vida ou pela nossa morte. Ela é essência, e foi criada junto com o Universo. Fisicamente, podemos descreve-la como a conexão com o Universo através do átomo primordial, o pai do Big Bang, em um fenômeno definido como entrelaçamento. Mas eu prefiro deixar uma dúvida sobre o que isso é exatamente e, ao invés de descrever a força, simplesmente sentir sua presença.
  2. Quando nos ferimos, física ou emocionalmente, estragamos partes externas de nós. Carne, ossos, conexões neurais, conhecimentos podem ser corrompidos, dilacerados. As más experiências criam traumas e fobias, limitações de movimento físico ou até de pensamento. Mas todos estes ferimentos acontecem em camadas exteriores de nosso ser, se considerarmos que o núcleo espiritual permanece intocado.
  3. As armaduras externas são boas para proteger o corpo, mas ineficazes para os sentimentos e não fazem sentido nenhum para o espírito. Seu uso contínuo torna as pessoas dependentes e neuróticas, atrapalhando a vida em sociedade e criando traumas sem que a agressão de fato ocorra. O imaginário do medo cria cenas e nosso corpo as absorve como se estivéssemos sofrendo de fato.
  4. Assim, a única proteção eficaz acontece de dentro para fora. A energia do espírito é infinita, pois nossa faísca invisível é capaz de conectar-se a todo o Universo. Pode invocar toda a sua força, curando e protegendo todas as camadas de nossa existência. Por isso os monges Shaolin, árduos praticantes de kung fu, podem receber nus a ponta afiada de uma lança sem que ela os penetre. Não se trata de resistência física, mas de grande força espiritual que se manifesta na resistência aparentemente mágica da carne mais forte que o aço.
  5. Se eu puder desenvolver minha força espiritual e permitir que sua energia transborde por toda a minha vida, dentro e fora de mim, não serei ferido. Não precisarei de outras defesas.
  6. A única maneira de expandir o espírito é através do amor incondicional. A prática espiritual de amar, perdoar e agradecer, de buscar constantemente a voz da alma em todas as atitudes, leva à perfeição e à proteção do ser em paz, sem luta. Ainda que ele seja agredido, sua paz não será tocada, e os efeitos da agressão vão dissolvendo como veneno em muita água, que diluído se transforma em remédio.

Se os soldados voltam da guerra loucos e os monges vivem em paz, escolho o segundo caminho. Os próximos passos da minha vida serão guiados por este conhecimento. Que minha luz me proteja, e eu possa levar ao mundo um pouco mais de amor. Parece que ele está precisando.

 
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Publicado por em 18/02/2015 em Insight, Reiki

 

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Janela ou Corredor?

Quando criança, voando pela primeira vez, fiquei feliz por saber que faria a viagem junto à janela do imenso avião de passageiros, e poderia ver o mundo do alto. “As pessoas ficam como formiguinhas lá embaixo!”, dizia minha mãe. Era verdade. Ver o mundo encolher foi uma das experiências mais marcantes da minha infância. Daquele voo em diante, sempre fiz questão de voar no assento mais perto da imensidão azul, e me sentia um privilegiado por estar na melhor varanda do mundo, acompanhando as nuvens, rios e florestas passando sob nossas asas.

Aos poucos, fui entendendo o porquê de os adultos escolherem quase sempre o corredor: queriam esticar as pernas, ir ao banheiro, andar pelo avião sem precisar pedir licença ao passageiro ao lado, que algumas vezes dormia e roncava. Queriam sair logo da aeronave, erguendo-se para pegar as malas antes mesmo do aviso de atar cintos ser desligado, como se a vida esperasse por eles lá fora, na esteira de bagagens. Coisas práticas de quem tem muito a fazer e não pode se distrair com coisas de criança, como nuvens e regras de segurança. Se pudessem, usariam teletransporte no lugar do avião. Voar, ainda que rápido, lhes parecia  um estorvo e uma grande perda de tempo.

Mas por alguma razão as primeiras rugas e cabelos brancos não produziram o mesmo efeito em mim. Talvez pelo fato de amar o voo, ou quem sabe por ter me mantido um pouco criança até hoje. O céu para mim é o mais belo museu de arte mutante, em cores e formas que jamais se repetem. Meu encontro com ele é uma eterna primeira vez. Não tiro os olhos da vastidão que se revela naqueles 30cm de plexiglass, e torço para que o passageiro da frente seja como eu, e mantenha sua janela aberta, para me dar um pouco mais de vista.

Quando estou na cabine de comando, aí nem se fala: me penduro por cima do painel e fico ali, admirando o mundo até que o trabalho me chame de volta. À noite o espetáculo pode ser ainda mais belo, com um mar de estrelas ou uma lua cheia a brindar o pontinho prateado que rasga os céus sobre as formiguinhas que dormem lá embaixo, inconscientes da presença curiosa e atenta alguns quilômetros acima.

Acredito que a escolha de assentos aconteça com a nossa vida de forma semelhante. Com o tempo, vamos procurando confortos e “praticidades” que nos distanciam das belezas menos confortáveis da vida. Trocamos trilhas por estradas, bicicletas por sedans, acampamentos por hotéis, shows de rock por um blue-ray no sofá. E perdemos a chance de conviver com o inesperado, com novas pessoas e cenários, gostos e cheiros que só o assento da janela pode proporcionar. A vida no corredor nos envelhece, pois deixa de lado os desejos da criança que vive em nosso inconsciente.

A minha criança interior tem me cobrado mais aventuras. Esses dias comprei um barquinho e mandei reformar minha velha moto. Espero que ela goste dos passeios que estou planejando, já que nenhum deles terá assento de corredor.
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Publicado por em 12/02/2015 em Insight

 

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Lutar, rezar ou plantar

Vivemos dias conturbados. De medo, repressão e raiva. São sentimentos confusos que lutam dentro de todos nós. Não há ser humano no mundo que jamais tenha se corrompido, sido vítima de outro ou tenha, em algum momento, sentido vontade de morder, apedrejar uma vidraça, gritar palavrões e resolver na porrada algo que considerasse ultrajante.

Nos contemos por motivos diversos, alguns nobres como o perdão, outros nefastos como a covardia. Aquilo que nos trava é tão complexo e confuso quanto o que nos impele à ação. Venho meditando sobre isso há tempos, conversando com amigos e mestres, ainda sem chegar a uma conclusão do que fazer com minha própria participação nos eventos que se desconrtinam nas ruas do país. Ficam a dúvida do caminho a seguir e a frustração de me sentir inútil quando o mundo precisa tanto de ajuda.

Eu quero ver o mundo humano muito diferente do que ele é hoje. Especialmente o Brasil, marcado pela desordem, sujeira, preguiça, violência, enfim… Nem é bom continuar, já que o leitor conhece todas as doenças desta terra moribunda. Mas o caminho para mudá-lo é muito menos claro do que o diagnóstico de seus males. Cada ação desencadeia muitas coisas, algumas boas, outras nem tanto, e a história nos prova que a maioria das soluções praticadas por outros povos não deu certo.

Gandhi, meu maior herói, desafiou a opressão britânica e guiou um exército pacifista para a maior conquista do sub-continente: a liberdade de decidir seus rumos. Resultado? Uma guerra entre muçulmanos e hindus que resultou na morte de milhares, inclusive no assassinato de Mahatma Gandhi, e na separação de Índia e Paquistão, ambos hoje imersos em pobreza e corrupção. Claro que o futuro de uma região inteira não se deu pelas mãos de um ativista, cujo trabalho admirável segue inspirando pessoas pelo mundo. Mas o fato é que pouca coisa mudou no abismo entre povo e governo, exploradores e explorados. A nacionalidade de quem manda pouco importa.

O mesmo podemos dizer das mudanças no poder através de revoltas violentas. Eu não tenho dúvidas de que os comunistas que tomaram a Rússia de 1917, assim como os militares de direita do Brasil de 1964, queriam consertar as coisas. Matar os czares lá e perseguir os comunistas aqui pareciam soluções para restaurar a ordem e a justiça, mas o poder absoluto corrompe absolutamente, e o ódio cego levou a crimes e tristeza, e a mais revoltas e mais violência. Pior, o fim não justificou os meios, tanto que hoje russos e brasileiros penam pelas mesmas coisas que os faziam sofrer 50, 100, 500 anos atrás.

Quando eu vejo estudantes levando tiros, quero juntar-me a eles. Não aceito ficar em casa assistindo seu martírio sem agir. Por outro lado, quando vejo meu mural no Facebook, por vezes me assuto com o ódio espumando nas minhas palavras, com a violência dos meus registros, mostrando gente sangrando na rua, gritando, agredindo, quebrando… Até que ponto posso me revoltar contra um governo sem me contaminar com a raiva que eu também condeno? Será possível gritar “morte ao rei” sem que isso leve ao caos e ao sofrimento? E se o rei morrer, alguem melhor tomaria o seu lugar?

Se a história nos serve de lição, a resposta é… Complicada. Nenhuma revolução resolveu as coisas imediatamente, mas os povos mais atentos e mais dispostos a ir às ruas protestar vivem em países mais organizados. É mais uma questão de cultura do que de governo. Ninguém precisa prender um suíço que ocupa uma vaga de cadeirante… Porque ele simplesmente não ocupa a vaga de cadeirante. Se tentar, o vizinho vai lhe criticar com tanta veemência que não será necessário chamar a polícia. Todos cuidam da ordem. Senti isso na pele quando andei sem querer na faixa errada de uma ciclovia em Amsterdam. Sem falar holandês, entendi direitinho a carraspana que me deram.

O Brasil precisaria ser reinventado para funcionar, pois está praticamente todo errado. E se ficar em casa sentado não ajuda, ver que os protestos estão atraindo o caos me faz pensar se é assim que eu quero ajudar. Vou me sentir um covarde se o movimento for derrotado sem a minha participação, mas ficaria muito culpado se justiceiros, black-blocs e esquadrões da morte transformassem o país numa barbárie total, iniciada por quem queria uma solução corajosa e pacífica, como a do Gandhi. Ele fez greve de fome quando seus seguidores tornaram-se violentos. Eu faria o quê?

Para complicar um pouco mais, vem a questão da minha filosofia de vida e de maestria. Tornei-me um mestre Reiki por acreditar que somente o amor salva. Apliquei isso em minha vida, perdoando a mim mesmo e àqueles ao meu redor. Apliquei os 5 princípios (não se zangue, não se preocupe, etc) para buscar a paz interior… E prometi fazer o bem e pregar o bem. Não consigo combinar isso com “morte ao rei”! A raiva e o desejo do mal ao outro são limites muito claros de onde eu posso ir sem ferir aquilo em que acredito. Eles se manifestam assim que eu me movimento na direção das passeatas, pois a injustiça aos que protestam é nítida, e me ferve o sangue.

Nesse momento me surge apenas uma resposta, a resposta do monge dentro de mim: minhas árvores. Na verdade, a resposta também veio da monjinha ao meu lado, minha namorada que reenviou o vídeo abaixo. Agradeço a ela por me lembrar.

Eu planto árvores. São meu presente para os alunos que chegam (cada um leva uma mudinha). São algo de bom que eu posso fazer por quem preserva, mas também por aquele que devasta, ignorante e doente. Minhas árvores só farão o bem, não importa o que aconteça. Elas geram tudo o que precisamos para viver, restauram a vida e a saúde da Terra. Não levam meus defeitos em consideração, não crescem tortas pelo meu medo, minha raiva ou minha culpa. E não julgam tampouco os demais membros da humanidade, pois oferecem seus frutos a todos. Plantar árvores me traz uma paz imensa, uma sensação de dever cumprido, de minha vida ter um sentido nesse mundo. Quando inicio minhas árvores no Reiki, digo a elas que serão pontos de luz no mundo, como meus alunos. Mas isso nem seria preciso. Elas já cumprem sua missão com maestria por sua simples e divina natureza.

Eu não sei dizer se o mundo precisa de revoltas ou de paz, se devemos degolar o rei ou tentar ensinar a ele alguma coisa. Mas eu sei que árvores geram frutos, absorvem carbono, regulam o ciclo das águas, dão abrigo a quem precisa. E já que não me considero sábio o bastante para saber a quem agredir, pretendo me retirar dos conflitos e fazer aquilo que sei. Espalhar minha floresta pelo mundo, muda por muda. Não sei se serei capaz de tamanha disciplina, mas me proponho a tentar. E aceito a ajuda de todos que quiserem plantar comigo.

O Homem que Plantava Árvores

 
 

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A dança

Viver o momento presente com a mais absoluta intensidade, atento a cada detalhe, saboreando cada informação de um lugar neutro. Respirar conscientemente, sentir o toque dos pés no chão. Entender que a vida, a luta, o dia, todas as experiências, passam por meu corpo como ondas em alto mar. Ocorrem através de mim, feito música. Meus movimentos são a dança ao som da vida.

Perceber que minha consciência pode não só preencher todo o meu corpo, e comunicar-se com cada parte, como transcendê-lo por completo, e entrar sob o chão, percorrer minha espada, trançar-se no outro diante de mim. Unir seus movimentos à minha dança, tornando-nos um sob a mesma música.

Este é o sentido da vida.

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Publicado por em 08/02/2014 em Curtas, Insight

 

Reiki – Apoio

Quando um novo aluno chega para seu curso de Reiki, a primeira coisa que ele nota é a grande quantidade de gente ao seu redor. Turmas de um ou dois alunos podem ter dez pessoas fazendo chá, acendendo incensos, organizando materiais e ambiente até que a aula tenha início. Quando o mestre começa a falar, estão todos em círculo, prestando atenção não apenas no mestre mas também nos alunos, em suas necessidades, dúvidas e entendimentos. Mas afinal, quem são essas pessoas? O que as leva até ali e qual a sua importância no desenvolvimento dos recém chegados?

Segundo os ensinamentos de Siddhārtha Gautama, toda prática (seja ela espiritual ou não) deve se apoiar em um tripé composto de Buddha, Dharma e Sangha. A maioria dos treinamentos espirituais, marciais e educativos do oriente se dá nesses moldes. Buddha significa o mestre, aquele que ensina e que guarda o conhecimento. Dharma é o conhecimento em si, as leis, teorias e práticas, que devem ser preservadas em sua originalidade. E Sangha é a comunidade de praticantes, do mais antigo ao mais novo, que proporciona um auxílio multi-direcional e faz com que toda a engrenagem do aprendizado funcione.

Se o mestre é importante para que o aluno entenda a lição, e se o conhecimento é indispensável para que aquele tenha o que ensinar, a comunidade provê um suporte logístico, presta um apoio emocional importante para a confiança e a entrega do novo aluno, e o auxilia no aprendizado por 3 coisas fundamentais: com sua evolução, mostram onde o novato pode chegar; com seus tropeços, falhas e erros, servem de espelho para ele observe como seus próprios comportamentos doentes se manifestam; e com sua experiência, facilitam o entendimento dando traduções pessoais e exemplos práticos que enriquecem e completam a informação passada pelo mestre.

É impossível enfatizar demais o que representa o apoio emocional a quem chega e está prestes a abrir seu coração pela primeira vez. O grupo acolhe os erros, dores e lágrimas. Comemora os avanços, encoraja o praticante a entrar de cabeça no processo de auto-conhecimento e auto-cura. Citando novamente o mestre Siddhartha, conhecer a si mesmo é curar a si mesmo. Mas esta cura pode ser mais suave e tranquila com a ajuda e o espelho dado pelo apoio.

E como um aluno torna-se apoio? Uma vez concluído o nível 1, ele está automaticamente convidado a participar dos próximos cursos deste nível como apoio. Na nossa comunidade, usamos um grupo no Facebook – Reiki também pode ser moderno, afinal :) – em que trocamos informações entre todos os iniciados, e combinamos encontros, novos cursos, envio de energia e outras atividades. Alunos de nível 2 apoiam cursos de seu nível para baixo. E alunos nível 3B podem até realizar iniciações junto com o mestre, ou orientados por ele.

Alguns dos materiais levados ao curso são responsabilidade do apoio. A organização do espaço, caronas e comboios para levar os alunos, e tudo o que facilitar nos preparativos faz parte de suas atribuições. Ao longo do curso o apoio participa das atividades e conversas, mas está sempre atento para que nada falte: um copo com água aqui, um lenço de papel ali, uma janela mais aberta para refrescar, o horário de algum remédio, atender uma ligação de familiares do aluno, etc. Tudo para que mestre e aluno não tenham distrações e se mantenham confortáveis e conectados. No fim do dia, o apoio garante que o espaço utilizado retorne ao seu estado anterior ao curso, limpo e organizado.

Não cabe ao apoio, porém, reviver os processos emocionais que ele teve em seu momento de aluno. Um componente do apoio é livre para sentir, mas deve conter-se para não confundir seu papel com o de um aluno novo. Este orecisa de ajuda, e não o contrário.

O apoio é um trabalho voluntário e não vinculado ao curso de Reiki 1. Alguns alunos realizam a iniciação e seguem seus caminhos sem manter contato conosco. É uma escolha pessoal e livre. Mas o apoio representa a continuidade do aprendizado, e eu pessoalmente considero uma das formas de o praticante alcançar os méritos e a confiança necessários para receber os níveis seguintes. Outras maneiras são o estudo teórico, os exercício passados pelo mestre e o atendimento a pacientes.

Meus queridos alunos que compõem minha família espiritual merecem meu carinho e minha gratidão. É uma honra te-los ao meu lado, de mãos dadas, fazendo tão belo trabalho.

Namastê.

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Publicado por em 01/02/2014 em Reiki

 

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