O ano era 2005.
Estava terminando uma folguinha tranquila vindo do Porto Alegre, uns dias passados com a namorada e os gatos seguidos de uma parada em SP pra acertar alguns negócios, quando me ligaram do táxi aéreo em Goiânia, dizendo que havia um vôo sem piloto no dia seguinte, e que somente eu poderia resolver o problema. Dei um jeito de pegar, numa noite de sexta-feira de Congonhas lotado, uma carona num avião da TAM para retornar à minha base. Todo amassado, barbudo, cheio de malas, mas cheguei.
Inacreditável a diferença que se sente ao sair de SP, naquela zona barulhenta e poluída, e descer na calma quase morta do bairro Santa Genoveva, onde se encontra o aeropoto de Goiânia. Olho pros dois lados pra atravessar a rua por força do hábito, pois não há um carro sequer em movimento. [hoje em dia não é mais assim, e o trânsito ao redor do aeroporto já é tumultuado]
Às 5 horas da madrugada pego o carro da empresa com meu co-piloto e nos mandamos pra Brasília, onde encontraríamos os passageiros, numa conexão vinda de SP. Embarcamos pax e bagagens no Caravan (o avião, não o carro), e acionamos o motor. Meu fiel escudeiro havia me passado as coordenadas no caminho. Quando eu vi a latitude de 5 graus Sul, pensara “ih, caraio” – até então havia fugido com sucesso dos vôos para o Norte do Brasil, mas não tinha naquele momento a menor noção do que me esperava.
O Caravan acelerou devagarinho na pista enorme de BrasÌlia [hoje são duas, naquele tempo era uma só]. O rugido do motor era manso, e deixei ele subir devagarinho. 4000kg de lata, varas de pescar, gente, cerveja e muito querosene pra chegar até São Félix do Araguaia, onde iríamos reabastecer. Ficavam pra trás os prédios da cidade mais estranha do país. Antes de desaparecer entre as nuvens, ainda pudemos dar uma olhada na ponte nova, grande atração arquitetônica daquele ano, que havia custado uma fortuna de 300 e tantos milhões de reais… bem mais bonita de cima do que de perto.
Passaram por baixo de nós Goiás, Mato Grosso, Tocantins, e entramos no Pará. A paisagem do cerrado foi sendo trocada pela floresta tropical. Desde meus tempos de piá, vendo as fitas gravadas em BetaMax do Jaques Cousteau, eu sabia que veria coisas boas e terríveis na Amazônia, mas a experiência em primeira pessoa me deixou de queixo caído…
O que meus sentidos tiveram acesso foi estarrecedor. A mata toda comida, cortada por estradas colocadas lá pra arrancar a madeira do seio da floresta. A fumaça abaixo do nosso nível de vôo era tão intensa que eu não via nada pra frente, muito pouco pra trás e limitava minha navegação a olhar para baixo. Estávamos altos demais (3200m) para ver o fogo durante o dia, mas as toras enormes das grandes árvores podiam ser vistas ardendo ou caídas no chão. A floresta sangrava em preto e cinzas.
A animação dos passageiros, que não dormiram como eu esperava – haviam roubado nosso mapa no começo do vôo e ficavam direto perguntando o nome de cada vila e curso d’água que aparecia – de repente se transformou em choque, e logo em revolta. Eram pessoas de SP, acostumadas com fumaça, mas nunca com aquela destruição de algo que sonhávamos verde e virgem. As piadas e risadas deram lugar a um silêncio que doía nos ouvidos.
Começamos e descer. O véu branco sujo da atmosfera atingia uns 2500m de altura. Ao entrarmos na fumaça, o cheiro não era de fogueira, parecia mais com um incêndio urbano mesmo. Sufocante, tóxico, triste. Fechar a ventilação do avião de nada adiantou. Comecei a me preocupar com a segurança do vôo, pois via cada vez menos pra frente e meus instrumentos não ajudariam muito a pousar a máquina naquele lugar. Estávamos longe de tudo, sem uma antena de rádio pra servir de guia, e sem combustível para brincar de cabra-cega. Ou achávamos a pista em meia hora, ou alternaríamos pra São Félix do Xingu, a nordeste. Se demorássemos demais, teríamos de descobrir outra pista por perto, no meio da mata.
Aos poucos, me desorientava. Ao olhar para fora, o avião parecia torto, pois a fumaça escondia o horizonte. Corrigia instintivamente, mas ao voltar os olhos pra cabine via que eu estava era entortando o bicho pro outro lado. Fomos até 1500m de altura, e demos de cara com uma das fontes de tanta fumaça: dentro de uma reserva indígena, apontada no Guia 4 Rodas que usávamos para nos orientar onde os mapas de aviação mostravam apenas mato, uma enorme queimada de 10km quadrados. Longe do Rio Xingu e do Rio Iriri, longe dos olhos dos fiscais que andam de barco por lá uma vez por mês. Mas estupidamente clara numa imagem de satélite. Pq ninguém pousava de helicóptero ali e prendia os caras no ato?
Ao passar por essa queimada grande, a visibilidade melhorou e logo localizamos nosso destino. A pista dava de cara pro mato de um lado, e para uma ilha do Rio Iriri, um afluente a sudoeste do Xingu, do outro. Já sabíamos, pelo croquis que tínhamos recebido do dono da pousada, que deveriamos nos aproximar pelo rio. Aquilo ia ser divertido…
Reduzi bem o Caravan e descemos até a altura de 300m sobre a mata, passando pela lateral da pista. Nao havia objetos ou buracos que chamassem a atenção, e a tripa de terra cortada no meio do verde parecia estar em ótimo estado. Virei o avião de uma vez pra cima do rio, já com velocidade de uns 200km/h (cruzamos em rota a 300km/h e descemos a 350). Fui descendo até abaixo da altura das copas de árvore, mais ou menos uns 30m de altura, mas nada de turbulência. A atmosfera era calma como as águas logo abaixo de nossas asas.
Terminamos as checagens finais pra pouso e meu copila foi alertando as velocidades. Desci até uns 10m acima do rio, ficando quase na mesma altura da pista. Parecia uma cena de Guerra nas Estrelas com as naves voando nos corredores da Estrela da Morte! Havia um barranco grande na cabeceira, então não poderia tocar antes do tempo ou o trem de pouso ficaria ali mesmo, e estragaríamos a cerveja no bagageiro que ficava na barriga do avião. Mas foi tudo manso, e como sempre o “Caraveta” veio firme até o fim e tocou sozinho logo no começo da pista, jogando um monte de terra pro alto. Usei pouco reversor para evitar que o motor comesse areia, e deixei o avião correr até o fim da pista, que devia ter uns 800m. Meia volta lá no final, de cara pras árvores enormes, e voltamos para a única saída, que dava para as 3 ou 4 construções do local. Achei um cantinho seguro sem pedras ou terra solta e cortamos o motor. Chegamos.
Dizem que a saudação local é um abano com a mão direita e uma coçada com a mão esquerda. O lugar é puro mosquito! O pessoal local chama de pium, um bichinho parecido com mosca de banana mas que ataca sem dó todo pedacinho exposto do corpo da gente. “É só durante o dia”, falou o dono da pousada, tentando nos animar, enquanto mostrava-nos o local. As instalações para os hóspedes eram fantásticas para um lugar tão longe de tudo, bonitas e confortáveis. Mas o barraco de pau-a-pique (barro seco com palha nas paredes armadas com pequenas varas de madeira, cipó e bambu, e telhado sem forro feito de folhas secas de bananeira) onde iríamos dormir era tão bisonho que deixava claro que a noite seria muito mais complicada que o dia e seus mosquitos.
